Os 14 entraves da cultura potiguar

de Equipe Catorze

Fazer cultura em uma cidade de médio porte, longe dos grandes centros urbanos do Brasil e arraigada em costumes ainda provincianos é heroico. Aqui e acolá algumas boas iniciativas nascem no Rio Grande do Norte, umas com uma vida curta e que deixam saudades nos mais nostálgicos, outras que, aos trancos e barrancos, seguram a onda no Estado.

Muita coisa melhorou nos últimos 20 anos, para pensar numa perspectiva otimista. Mas está longe do ideal. ARevista Catorze se deu o trabalho de indicar o que considera os 14 maiores entraves para o desenvolvimento artístico e cultural da cidade. Os motivos variam: desde a falta de políticas públicas adequadas para a área, até o desinteresse das empresas privadas em patrocinar a cultura.

O problema é mais profundo e complexo do que esses 14 pontos possam sugerir. Mas, sem falsa modéstia, acreditamos que eles servem como norteadores para se buscar melhorias na arte e na cultura local. A lista abaixo é fruto da nossa observação e também das nossas conversas com artistas, produtores e gestores culturais da cidade.

Falta de espaço para circulação cultural

O Rio Grande do Norte tem 167 municípios, mas as obras artísticas produzidas aqui, quando muito, circulam apenas em Natal e no máximo em Mossoró. As Casas de Cultura, que são uma boa iniciativa, podiam funcionar de fato e serem usadas pelos artistas e poder público como locais para a circulação de peças de teatro, exposições e festivais de cinema e música. É preciso interiorizar a arte. E isso também é válido para Natal. O circuito artístico da capital é praticamente exclusivo da Ribeira. É preciso que centros de cultura sejam criados em bairros da cidade, sobretudo na Zona Norte – que tem um Caldeirão de Cultura muito mal utilizado -, e que a circulação artística seja incentivada.

Fundação José augusto: órgão parado no tempo

A Fundação José Augusto parou em algum lugar ali na década de 30 e não evoluiu. Não se discute, nem se pensa o cenário atual da arte e cultura potiguar lá. Prendem-se apenas a um passado retrógrado. E, além disso, falta transparência. O órgão precisa se abrir às novas formas de expressão artística, é preciso ser mais democrático e ouvir de fato os artistas locais. A política de eventos não é construtiva, tem que se buscar o modelo de ações que contribua para o desenvolvimento sustentável da produção e circulação.

Funcarte: órgão político

Na Funcarte não existe concursado, só cargo comissionado. Isso gera um problema: a escolha para a ocupação dos cargos é política, não técnica. Isso, por si só, já prejudica (e muito) a gestão da cultura na cidade. Além de quê, o órgão sofre da mesma doença da Fundação José Augusto: está parado no tempo e espaço. É como se não existisse. Pior, só atrapalhasse.

Poucos incentivos para o audiovisual

Existem bons festivais de cinema em Recife, João Pessoa e Fortaleza. O Rio Grande do Norte tem o quê? Apenas o FestNatal, um evento que já foi bom, mas hoje virou palanque político. O Goiamum, que é um evento legal, precisa ralar muito todo ano para ser realizado, quando é possível. O certo é: o audiovisual é escanteado na cidade. Mais que festivais,  o que precisa é cursos de profissionalização e investimento na produção. Em Pernambuco, só pra área, o montante é na ordem de R$ 11,5 milhões este ano. São poucas iniciativas, tanto na produção, quanto na exibição. E é bom lembrar: o audiovisual pode ser usado como uma bela ferramenta para incrementar o turismo na cidade.

Ausência de ciclos de formação

Uma boa circulação de obras artística já seria essencial para melhorar a formação de público na cidade. Mas não o suficiente. Investir em ciclos de formação de público e novos artistas, com oficinas, aulas e workshops oferecidos nos bairros, de forma gratuita, seriam uma grande contribuição para o Rio Grande do Norte. Assessoria pedagógica em alguns espaços também poderia contribuir para educar.

Falta iniciativa dos artistas

Numa cidade onde o poder público é inchado, movimenta-se mal, burocrático e que escanteia a arte, o artista não pode ficar a mercê da verba estatal. Tem que se movimentar, arriscar, ter iniciativas empreendedoras e correr riscos se, de fato, desejar viver e mostrar a sua arte. Poucos tiveram a coragem e ousadia de fazer isso. E muitos artistas precisam disso: coragem e ousadia para deixarem de ser dependentes da verba pública. Fala-se que Natal é cosmopolita, esponja cultural, pois está na hora de deixar de ser uma cidade que só hospeda e passar a ir além das fronteiras do elefante. Há qualidade. Falta apostar e saber apostar.

Falta de crítica cultural

A crítica cultural em Natal é limitada a pequenos círculos, quando existem. Jornais, site, blogs e revistas se contentam em apenas reproduzir releases divulgar eventos. É preciso incentivar a produção crítica sobre as diversas expressões artísticas do Estado. É verdade que é um problema nacional, mas que no Estado toma proporções maiores, pois para algumas áreas como artes visuais e teatro, a análise é praticamente nula. E sim, resenha ajuda, mas é preciso ir além.

Crítica cultural é, em geral, mal recebida

A pouca crítica que existe na cidade é, em geral, mal recebida e tida como uma declaração de guerra ao artista e à arte. No processo de maturidade cultural da cidade é preciso que alguns produtores e artistas saibam respeitar, aprender e também a crescer com a crítica recebida. Nenhum artista é unânime, assim como a opinião.

Pouco patrocínio privado

A iniciativa privada patrocina muito pouco a cultura local. Empresas de grande porte com raízes locais se furtam de contribuir com o cenário cultural. Essas empresas precisam entender que o mecenato cultural é essencial para a formação de uma boa imagem (marketing) e também para incremento do público. O patrocínio privado da cultura ocorre, praticamente, apenas pela Cosern. E, quando acontece, muitas vezes são voltados para a área de música e grandes eventos.

Bibliotecas sucateadas

Na terra de Zila Mamede, as bibliotecas sofrem. A Biblioteca Câmara Cascudo agoniza em Petrópolis, num prédio que está há mais de 40 anos sem reforma e com o acervo que nem digitalizado está. Fora o descuido, fruto de pautas constantes, com as obras que estão ali. Todo ano se fala a mesma coisa, mas nada é feito para mudar. É preciso pensar num projeto modernizador para a biblioteca, criar eventos para movimentar o local e, por favor, reformarem aquele prédio. Sim, administrar uma biblioteca também envolve movimentá-la, criar ações e campanhas que tragam a população pro espaço.

Falta de espaço adequado para exposição de artes visuais

O Rio Grande do Norte é, economicamente, o quarto maior estado do Nordeste. Passou por um belo crescimento econômico na última década, mas não tem nenhum – repito – nenhum espaço adequado para exposições de artes visuais. O problema é: exposições de grandes artistas chegam até Recife, pulam Natal e vão direto para Fortaleza. Tanto o NAC-UFRN, quanto a Pinacoteca são insuficientes e já antigos. Faltam estrutura e administração adequadas.

Em Natal, não há incentivos para museus

É vergonhoso uma cidade como Natal não possuir incentivos para museu e o poder público se satisfazer praticamente apenas com o Câmara Cascudo, que é de propriedade da UFRN. O Museu da Cultura Popular, propriedade da prefeitura (e ideia muito boa da gestão passada), está esquecido. Não há financiamento, não há incentivo e nem iniciativas para reforma, melhorias e construções de novos museus na cidade. Falta campanhas e ações que tragam as pessoas para os espaços. O Forte dos Reis Magos, que também poderia ser utilizado como museu, agoniza. O Rio Grande do Norte tem essa mania feia de não respeitar a própria história.

Falta cinema de arte

Filmes nacionais não chegam aqui. Lançamentos de boas obras, mas não tão comerciais, quando chegam, passam no máximo uma semana na cidade. Quase sempre em uma sessão perdida às 14h. Faltam alternativas para quem gosta de cinema, sobretudo os que gostam de acompanhar os lançamentos, em Natal e no Rio Grande do Norte.

Falta Educação

Os investimentos são pequenos. Os professores recebem mal. Salvo raras exceções, a estrutura das escolas no Estado é péssima e o aluno não tem o menor incentivo para estudar. Resultado: o Rio Grande do Norte tem um dos piores ensinos públicos do país. E, um povo que não conhece sua história, sua cultura, sua raiz está fadado a comer grama.

Faltou alguma coisa? Queremos ouvir a sua sugestão nos comentários.

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Um Comentário em “Os 14 entraves da cultura potiguar”

  1. Hugo Manso (@HugoMansoPT) 03/07/2012 às 19:45 #

    Gostei da iniciativa. Vamos construir alternativas prá enfrentar o caos acima.

    Hugo Manso

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